Tempo é um tema que sempre me interessou e até intrigou, tanto pela minha vivência pessoal do tempo psicológico e o tempo “real” marcado em relógios como sua discussão no campo do desenvolvimento humano e organizacional.

Além da psicologia, a filosofia também aborda o Tempo desde os primórdios do pensamento humano. Seja nas visões e preceitos de Sêneca sobre o uso do tempo há dois mil anos, como no século XX pelo existencialista alemão Martin Heidegger em seu livro hermético sobre “Ser e Tempo”.

Em meu início de carreira em desenvolvimento gerencial da General Motors  fui encarregado de desenvolver um curso sobre Gestão do Tempo, tema que então entrava no topo das paradas de publicações e cursos e de lá nunca mais saiu, especialmente com a aceleração vertiginosa das mudanças da civilização com a avalanche tecnológica em nosso Mundo VUCA.

Em 2004, eu escrevi um artigo sobre Tempo: Quem Sabe Faz Acontecer em que iniciava com uma constatação e preocupação: “Se existe nesta vida um recurso distribuído com total equidade entre os seres deste planeta é o tempo. Todos temos os mesmos 86.400 segundos por dia para tomar uma decisão muito importante ou para perder a oportunidade de sua vida, por não termos agido a tempo. No entanto, a maioria das pessoas reclama da falta desse recurso tão democrático, esquecendo que, às vezes, também lamenta que seja elástico demais.”

Mais recentemente, voltei a ler os estoicos que tem Sêneca como um de seus mais célebres filósofos, com o livro “Um Café com Sêneca” (David Fideler) que me motivou a ler outros livros do romano como “Sobre a Brevidade da Vida” que por sua vez, me inspirou a escrever este artigo.

O que eu pretendo com o texto é refletir sobre essas duas visões filosóficas sobre o Tempo e sobre sua aplicabilidade no mundo organizacional.

O Tempo: Um Diálogo entre Sêneca e Heidegger

O Tempo é essa entidade intangível tempo que permeia nossa busca de significado para existência que nos diferencia como espécie. Entre os muitos pensadores que se debruçaram sobre essa questão, Sêneca, o estoico romano, e Martin Heidegger, o existencialista alemão, oferecem visões que se complementam e desafiam nossos entendimentos modernos sobre o tempo.

Sêneca: O Tempo como um Bem Precioso

Lucius Annaeus Sêneca, pensador do século I, enxergava o tempo como o bem mais precioso que possuímos. Em suas cartas a Lucílio, ele frequentemente lamentava a maneira como as pessoas esbanjavam seu tempo, tratando-o como infinito enquanto se preocupavam apenas com riqueza e status. Para Sêneca, o tempo é um recurso finito que deve ser manejado com sabedoria.

“Vocês vivem como se fossem viver para sempre, a sua fragilidade nunca os socorreu, não observaram quanto tempo já havia transcorrido; mas o desperdiçam como se sua fonte fosse cheia e transbordante… Vocês temem tudo sendo mortais, e desejam tudo como se fossem importais.”

Ele nos alerta sobre a procrastinação e a negligência com que lidamos com nossas vidas. Para Sêneca, viver cada dia plenamente, com foco em virtudes e na busca da sabedoria, é a chave para uma existência significativa.

Uma passagem que impressiona por sua atualidade nas preocupações humanas no ambiente de trabalho é sobre o adiamento para uma vida além do trabalho:

“Você ouvirá muitos dizerem: quando eu tiver cinquenta anos me aposentarei, aos sessenta me retirarei dos cargos, mas quem garante que terá uma vida tão longa?… ”

Ainda que essas idades hoje se estendam por 60 a 80 anos, a mensagem de que “o tempo é o único bem irrecuperável” ou “o tempo presente é brevíssimo” e é o único com que podemos contar pois o passado é imutável e o futuro incerto.

Com desculpas por soar fatalista, cito outro pensamento que precisamos ter presente em nossas reflexões sobre a vida:

“Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que você se admire, toda a vida é um aprender a morrer”.

Essa mensagem ressoa especialmente em nossa era frenética, onde o imediatismo digital frequentemente nos rouba a capacidade de viver o presente.

Heidegger: O Ser e o Tempo

Avançando para o século XX, encontramos o filósofo existencialista alemão Martin Heidegger, cuja obra “Ser e Tempo” (1927) mudou para sempre a forma como concebemos a temporalidade. Heidegger não se contentou em ver o tempo apenas como uma quantidade a ser medida; ele o integrou profundamente à condição humana. Para Heidegger, ser e tempo são interdependentes, impossíveis de se separar.

O conceito de “ser-para-a-morte” de Heidegger sugere que a verdadeira realização do ser humano só ocorre quando enfrentamos a finitude de nossa existência.

Enquanto Sêneca nos aconselha a valorizar cada momento, Heidegger nos convida a confrontar nossa mortalidade para encontrarmos autenticidade. Vivemos num constante estado de “projetar-nos no futuro”, e é essa compreensão do nosso fim inevitável que dá sentido ao presente.

O Tempo nos Dias de Hoje

Na confluência dessas duas visões filosóficas, encontramos uma lição valiosa para o mundo contemporâneo. Em uma sociedade onde a velocidade e a produtividade são exaltadas, é vital redescobrir a sabedoria do tempo presente. Sêneca nos lembra de desacelerar e valorizar o momento; Heidegger nos desafia a encontrar profundidade e autenticidade em nossa existência finita.

Podemos, então, aprender a gerir nosso tempo não como algo a ser simplesmente preenchido ou desperdiçado, mas como uma dimensão da nossa existência que requer senso, reflexão e intencionalidade. Como disse uma vez Sêneca, “Não é que tenhamos pouco tempo, mas que perdemos muito”. E talvez, completando este pensamento, pudéssemos incluir a perspectiva de Heidegger: “Não é que sejamos seres no tempo, mas que somos seres do tempo.”

Em última análise, o diálogo entre esses dois grandes filósofos nos oferece uma bússola para navegarmos pela corrente incessante do tempo, não apenas existindo, mas verdadeiramente vivendo.

Gestão do Tempo nas Organizações: Uma Visão Filosófica

Desde os idos dos anos 70, gestão do tempo dentro das organizações tem se tornado uma preocupação central na era moderna, onde a eficiência e a produtividade são primordiais. Por exemplo, o livro “The Time Trap” de Alec Mackenzie de 1972 foi um dos que pesquisei para montar aquele meu curso na GM.  Um dos tópicos do curso era sobre os “desperdiçadores de tempo” que conversa diretamente com Sêneca. Então, quando envolvemos as perspectivas filosóficas de Sêneca e Heidegger, conseguimos uma compreensão mais profunda e holística da gestão do tempo corporativo.

Sêneca: A Sabedoria na Utilização do Tempo

Para Sêneca, o tempo é um recurso precioso que deve ser aproveitado ao máximo. Se ele estivesse dando palestras do TED hoje, ele nos aconselharia a não cair na armadilha de preencher os dias com atividades que não necessariamente trazem valor e assim reduzir o desperdício de tempo – seja em reuniões desnecessárias, processos burocráticos ou distrações ineficazes – e a focar nas prioridades. Ele defendia que um uso mais consciente e intencional do tempo levaria a uma existência mais rica e significativa.

Dentro do contexto organizacional, essa visão acentua a importância da priorização e da utilização consciente do tempo. Os infinitos encontros que poderiam se resolver com uma ligação ou tarefas redundantes são exemplos claros de como o tempo pode ser mal empregado.

Provavelmente, Sêneca hoje recomendaria a implementação de metodologias ágeis, a revisão constante de processos e a eliminação de atividades que não contribuem para os objetivos principais e que sacrificam o bem estar e o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal e familiar dos colaboradores.

Heidegger: Autenticidade e o Tempo nas Organizações

Martin Heidegger não tinha a pretensão de fazer propostas para a vida cotidiana como Sêneca, mas, sem sua “autorização” arriscaríamos a propor que o tempo na organização seja considerado de uma maneira mais existencial. Ele argumentava que o ser humano encontra significado verdadeiro quando enfrenta sua finitude e projeta-se para um futuro autêntico.

Aplicado ao ambiente organizacional, isso significa fomentar uma cultura que reconhece a finitude dos projetos e as limitações do tempo na vida humana. É necessário criar espaços onde os colaboradores possam entender a importância e o propósito de suas tarefas no grande esquema das estratégias e atividades da empresa.

Um leitura menos rigorosa de Heidegger nos permitiria incentivar a valorização da autenticidade no trabalho. Isso pode se traduzir na criação de um ambiente onde os colaboradores são encorajados a refletir sobre o significado do seu trabalho e fazer uso proativo do seu tempo para atividades que impulsionem crescimento pessoal e profissional contribuindo para a motivação e para um maior engajamento e, consequentemente, melhor desempenho organizacional.

Sinergia Filosófica na Gestão do Tempo

Integrar as perspectivas filosóficas de Sêneca e Heidegger na gestão do tempo nas organizações não é apenas uma curiosidade acadêmica, mas uma avenida prática para melhorar a eficiência e a satisfação no ambiente de trabalho.

Valorizando o tempo como o recurso mais precioso (Sêneca) e criando um espaço onde os colaboradores possam encontrar significado em suas atividades (Heidegger), as organizações podem não apenas alcançar seus objetivos de negócios, mas também contribuir para o desenvolvimento integral de seus colaboradores com algumas propostas práticas:

  1. Priorizar e Simplificar:
    • Adoptar práticas que eliminem desperdícios de tempo e priorizem tarefas que oferecem maior valor agregado, em linha com Sêneca.
  2. Promover a Autenticidade:
    • Criar um ambiente onde os colaboradores compreendem o impacto e o significado do seu trabalho, de acordo com a visão de Heidegger.
  3. Equilíbrio entre Eficiência e Reflexão:
    • Estruturar o tempo de forma que permita momentos tanto de alta produtividade quanto de reflexão e criatividade. Evitar a armadilha do constante “fazer no automático” e incentivar pausas estratégicas para reflexão.
  4. Cultura de Propósito:
    • Desenvolver uma missão organizacional clara que seja compreendida e adotada por todos, ajudando a alinhar as prioridades diárias com os objetivos a longo prazo.

Conclusão

Em um mundo onde o tempo é frequentemente visto apenas como um recurso a ser gerido, é crucial lembrar que ele também é uma dimensão da nossa existência humana.

As preocupações sobre a gestão do tempo são legítimas e essenciais para assegurar produtividade e bem-estar nas organizações. Ao aprender com os ensinamentos de Sêneca sobre a valorização do tempo e com Heidegger sobre a busca de autenticidade e significado, as organizações podem desenvolver práticas de gestão do tempo que não apenas melhorem a eficiência, mas também promovam um ambiente de trabalho mais saudável e satisfatório.

Dominar a arte da Gestão do tempo nas organizações vai além de técnicas e ferramentas; envolve uma compreensão mais profunda da natureza do tempo e de como ele se relaciona com nossa existência e produtividade. Integrando a sabedoria de Sêneca sobre a valorização do tempo e a reflexão profunda de Heidegger sobre nossa relação com ele, as organizações podem transformar a própria cultura organizacional, promovendo um equilíbrio saudável entre produtividade e bem-estar pela criação de ambientes de trabalho mais eficientes, autênticos e, acima de tudo, humanos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *