O nível de inteligência emocional (IE) em todo o mundo caiu pelo quarto ano consecutivo em 2024. Esse é o resultado da pesquisa anual realizada pela Six Seconds – Emotional Intelligence Network, que envolveu mais de 277 mil pessoas e 169 países.
O relatório – denominado “State of the Heart 2024” – traz uma análise alarmante sobre o declínio global da inteligência emocional (IE) e seu impacto no bem-estar das pessoas nos últimos anos.
O que é inteligência emocional?
A inteligência emocional é definida como a capacidade de reconhecer, compreender e gerenciar as próprias emoções, além de saber lidar com as emoções dos outros. É um conjunto de habilidades fundamentais para a tomada de decisões, a construção de relacionamentos saudáveis e a resiliência diante de desafios.
Nas dez principais habilidades para 2025 listadas no relatório Future of Work de 2025 do Fórum Econômico Mundial, 8 das 10 habilidades identificadas são habilidades de inteligência emocional. Sem inteligência emocional, as pessoas se sentem desamparadas, presas e suas vidas não têm sentido.
O declínio da inteligência emocional no mundo
De acordo com o relatório, as competências ligadas à inteligência emocional estão se deteriorando globalmente, o que levanta preocupações significativas sobre os impactos sociais e econômicos dessa tendência.
Desde 2019, o mundo tem enfrentado desafios sem precedentes, como a pandemia de COVID-19, crises políticas, conflitos geopolíticos e instabilidade econômica. Esses fatores têm influenciado diretamente o estado emocional das pessoas, resultando em um declínio progressivo da IE. A redução de 5,54% na inteligência emocional média global não é apenas um número estatístico, mas um reflexo de como as pessoas estão lidando com o estresse, a incerteza e as mudanças constantes em suas vidas.
O relatório sugere que essa tendência negativa pode estar associada ao aumento do burnout, da ansiedade e da depressão, problemas que vêm se tornando cada vez mais comuns em ambientes de trabalho, escolas e na vida cotidiana. O declínio da IE afeta diretamente a produtividade, a criatividade e a capacidade de resolver problemas de forma eficaz, o que pode ter repercussões em larga escala para empresas, instituições e governos.
A crise de bem-estar e a Geração Z
Um dos dados mais preocupantes apresentados na pesquisa é o impacto desproporcional que essa recessão emocional está tendo sobre a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012). De acordo com o estudo, 53,7% dos jovens dessa faixa etária apresentam níveis baixos de satisfação, o que indica um alto risco de desengajamento e esgotamento emocional. Esse dado confirma outras pesquisas recentes que apontam para uma crise de saúde mental entre os mais jovens.
A Geração Z cresceu em um ambiente de hiperconectividade digital, exposição constante a redes sociais e pressão social intensa. A pandemia agravou esse cenário, reduzindo as interações sociais presenciais e aumentando a dependência de tecnologias para comunicação e entretenimento. O relatório sugere que a falta de habilidades emocionais bem desenvolvidas entre os jovens pode estar dificultando sua capacidade de lidar com desafios do cotidiano, como frustrações acadêmicas, pressões no mercado de trabalho e dificuldades nos relacionamentos interpessoais.
A baixa satisfação relatada por mais da metade dessa geração pode levar a consequências graves, como aumento da evasão escolar, dificuldades na entrada no mercado de trabalho e problemas de saúde mental persistentes na vida adulta. Os pesquisadores sugerem que, para reverter essa tendência, é essencial que as escolas e as empresas invistam em programas de desenvolvimento emocional, proporcionando suporte para que os jovens aprendam a gerenciar suas emoções de maneira eficaz.
A diferença entre homens e mulheres
Outro ponto interessante levantado pelo relatório State of the Heart 2024 é a diferença de gênero na recuperação da inteligência emocional após a pandemia. Os dados indicam que as mulheres demonstram uma melhora em suas pontuações de IE e fatores de sucesso, enquanto os homens continuam apresentando declínios nesses aspectos.
Essa diferença pode estar relacionada a diversos fatores culturais e sociais. Tradicionalmente, as mulheres têm sido mais incentivadas a expressar e lidar com suas emoções, enquanto os homens frequentemente enfrentam expectativas sociais que desencorajam a vulnerabilidade emocional. Durante a pandemia, muitas mulheres precisaram desenvolver ainda mais suas habilidades emocionais para lidar com desafios como a sobrecarga do trabalho remoto, a administração da casa e o cuidado com familiares.
Por outro lado, os homens podem estar enfrentando dificuldades adicionais para se adaptar às mudanças no ambiente de trabalho, às incertezas econômicas e ao aumento das responsabilidades emocionais dentro das famílias. Essa diferença de resposta pode ser um indicativo da necessidade de políticas mais direcionadas para apoiar o desenvolvimento da inteligência emocional entre os homens, incentivando a busca por ajuda psicológica e a criação de espaços onde possam discutir suas dificuldades emocionais sem estigma.
As implicações da recessão emocional
O declínio da inteligência emocional e do bem-estar global tem implicações profundas para a sociedade. No ambiente de trabalho, por exemplo, a redução da IE pode levar a um aumento nos casos de burnout, conflitos interpessoais e queda na produtividade. Empresas que não investirem em inteligência emocional e bem-estar para seus colaboradores podem enfrentar dificuldades na retenção de talentos e na criação de ambientes saudáveis de trabalho.
Na educação, o impacto da recessão emocional pode ser visto no aumento da ansiedade entre estudantes, na dificuldade de concentração e no desinteresse pelo aprendizado. Instituições educacionais precisam incluir a inteligência emocional no currículo para ajudar os alunos a desenvolverem habilidades que os preparem para enfrentar os desafios da vida adulta.
Além disso, a recessão emocional pode afetar a estabilidade social e política, uma vez que indivíduos emocionalmente fragilizados podem ser mais suscetíveis a discursos extremistas, teorias da conspiração e comportamentos impulsivos. Em tempos de incerteza, a inteligência emocional desempenha um papel crucial na promoção da resiliência e da tomada de decisões informadas e equilibradas.
Como reverter o declínio da Inteligência Emocional?
O relatório State of the Heart 2024 sugere que há medidas que podem ser tomadas para interromper essa tendência e promover o bem-estar emocional global. Entre as soluções propostas, estão:
Educação emocional nas escolas – Incluir programas de desenvolvimento emocional no currículo escolar pode ajudar crianças e adolescentes a desenvolverem habilidades essenciais para gerenciar suas emoções desde cedo.
Apoio à saúde mental no ambiente de trabalho – Empresas devem adotar políticas que incentivem o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, bem como oferecer suporte psicológico e treinamentos de inteligência emocional para seus funcionários.
Criação de espaços seguros para discussões emocionais – Incentivar conversas abertas sobre emoções e vulnerabilidades pode ajudar a reduzir estigmas e promover um ambiente mais acolhedor.
Uso da tecnologia para o bem-estar – Ferramentas digitais, como aplicativos de meditação e monitoramento emocional, podem ser aliadas no fortalecimento da inteligência emocional.
Políticas públicas voltadas para o bem-estar – Governos devem investir em iniciativas que promovam a saúde mental e o desenvolvimento emocional da população, criando estratégias para prevenir crises de saúde mental.
Para reverter essa tendência, é fundamental que governos, empresas e instituições educacionais trabalhem juntos para promover o desenvolvimento da inteligência emocional e do bem-estar. A implementação de programas educacionais, políticas corporativas e campanhas de conscientização pode ajudar a reconstruir uma sociedade mais resiliente e emocionalmente equilibrada. Em um mundo cada vez mais complexo e volátil, a inteligência emocional não é apenas uma habilidade desejável, mas uma necessidade para o futuro da humanidade.
