Motivações e valores no trabalho: o que o MVPI capta que as entrevistas comportamentais não alcançam

Blog

Motivações e valores no trabalho: o que o MVPI capta que as entrevistas comportamentais não alcançam

Existe um tipo de pedido de demissão que desconcerta as organizações. Não é aquele motivado por uma oferta melhor, por conflito com o gestor ou por falta de crescimento reconhecível, causas que aparecem nas pesquisas de desligamento e para as quais os profissionais de RH já têm respostas treinadas. É o pedido de quem estava bem posicionado, bem remunerado, tinha um bom relacionamento com a liderança e perspectiva de crescimento. O tipo de saída em que, depois da conversa de desligamento, a equipe de pessoas sai com a sensação de que não entendeu o que de fato aconteceu.

O que raramente aparece nessas conversas, não por desonestidade de quem vai embora, mas porque é genuinamente difícil de articular, é o desalinhamento de valores. A pessoa não consegue nomear com precisão que os valores da organização são diferentes dos seus. Ela sente que o ambiente não é para ela; que as decisões que a empresa toma não refletem o que ela considera importante; que o que é reconhecido e recompensado ali não é o que ela quer construir. Essa percepção raramente é dita dessa forma. Chega como uma sensação crescente de que o esforço não faz sentido, mesmo quando os resultados são bons e as condições externas são favoráveis.

O engajamento global caiu para 21% em 2024, o menor índice registrado pelo relatório Estado do Ambiente de Trabalho Global da Gallup desde o período pós-pandemia, representando US$ 438 bilhões em perda de produtividade. Uma análise publicada pela HiBob no mesmo ano, com base em 59 fatores estudados, identificou que propósito foi a variável com a correlação mais forte com a permanência do colaborador: profissionais que encontram sentido no trabalho têm 2,7 vezes mais probabilidade de continuar na organização do que os que não encontram. Os dados confirmam o que qualquer gestor com experiência já observou ao longo da carreira. Quando as pessoas não encontram no trabalho o que consideram importante, elas se desconectam, mesmo que continuem presentes por um bom tempo.

O silêncio do desalinhamento de valores

O desalinhamento de valores é uma das causas de desengajamento mais subestimadas porque é a que menos aparece nas ferramentas de diagnóstico convencionais. Pesquisas de clima medem satisfação, engajamento e percepção de liderança. Avaliações de performance medem entregas. Conversas de desenvolvimento falam sobre competências e objetivos de carreira. Nenhuma dessas ferramentas foi projetada para capturar algo mais fundamental: o que cada profissional considera importante no trabalho e até que ponto o ambiente em que ele está inserido honra ou contraria essas prioridades.

O desalinhamento é silencioso e cumulativo. Nos primeiros meses em um novo cargo, o profissional absorve as características do ambiente sem ainda calibrar o que elas significam para ele. Com o tempo, o atrito se instala de formas que são difíceis de articular. O trabalho começa a pesar de maneiras que não têm uma causa evidente. O engajamento cai sem um ponto de virada claro. A relação com o gestor pode ser boa, a remuneração adequada, as tarefas interessantes, e ainda assim o profissional sente que o ambiente não é para ele. Uma pesquisa da Deloitte de 2023 identificou que 34% dos profissionais da geração millennial já recusaram empregadores que não se alinham com seus valores, uma disposição crescente de usar o fit cultural como critério de escolha antes mesmo de aceitar uma oferta.

O problema para as organizações é que esse filtro, quando exercido pelo candidato, não resolve o desalinhamento entre os valores declarados pela empresa e sua cultura real. Organizações comunicam valores nas páginas de carreiras e nas entrevistas; o que os colaboradores experienciam no dia a dia é frequentemente diferente. Quando há inconsistência entre os valores promovidos e os praticados, o impacto no engajamento é mais profundo ainda do que quando a empresa simplesmente não se posiciona sobre valores. A decepção com o que foi prometido é mais corrosiva do que a ausência de promessas.

O que as entrevistas comportamentais não alcançam por design

Entrevistas comportamentais partem de uma premissa metodologicamente sólida: comportamento passado é o melhor preditor de comportamento futuro. A estrutura de ‘conte sobre uma situação em que’ foi especificamente desenvolvida para coletar evidências de como o candidato agiu em contextos reais, reduzindo o peso das intenções declaradas, que qualquer pessoa aprende a formular, em favor de ações concretas. É um avanço real em relação a entrevistas não estruturadas, e há pesquisa consistente mostrando que entrevistas comportamentais bem conduzidas têm validade preditiva superior a outros formatos de conversa seletiva.

O que essa abordagem não captura, por design, são as preferências subjacentes que determinam em que contextos o comportamento observado vai se manter, se vai se intensificar ou se vai deteriorar ao longo do tempo. O candidato que demonstra excelente capacidade de trabalho colaborativo em uma resposta de entrevista pode ter feito isso por necessidade contextual, não por inclinação genuína. O que demonstra iniciativa e autonomia pode ter valores que o tornam inadaptável em ambientes de alta estrutura. O ponto não é que a entrevista produz informação incorreta; é que ela captura um estrato de informação sem acesso ao estrato mais profundo, aquele das motivações que determinam o fit de longo prazo.

Há também uma dinâmica de desejabilidade social que distorce sistematicamente as respostas. Candidatos aprendem a narrar experiências de forma a soar colaborativos, resilientes, orientados a resultado e abertos a feedback, independentemente do que realmente valorizam. Isso não é desonestidade; é uma resposta adaptativa a um processo que recompensa a autonarração cuidadosa. O resultado é que entrevistas bem conduzidas produzem dados sobre o que o candidato é capaz de comunicar sobre si mesmo, que pode ser bastante diferente dos dados sobre quem ele realmente é e o que ele realmente precisa para prosperar.

O que o mapeamento de motivações muda nas decisões de seleção, desenvolvimento e retenção

O MVPI (Relatório de Motivos, Valores e Preferências) avalia dez domínios de valores e motivações: reconhecimento, poder, hedonismo, altruísmo, afiliação, tradição, segurança, comércio, estética e ciência. Cada um desses domínios descreve um conjunto de preferências sobre como o trabalho deve ser, que tipo de ambiente o profissional prospera, que tipo de liderança o energiza e que tipo de cultura tem maior probabilidade de sustentar seu engajamento ao longo do tempo.

Essa leitura não é um perfil de personalidade no sentido convencional; é um mapa de cultura pessoal, do conjunto de condições que uma pessoa precisa encontrar no trabalho para dar o melhor de si.

Na seleção, o mapeamento de valores permite uma conversa mais honesta sobre fit cultural do que qualquer pergunta de entrevista consegue produzir. Quando a organização tem clareza sobre sua própria cultura, sobre o que de fato valoriza e pratica no dia a dia, e compara esse perfil com o do candidato, a análise de fit deixa de ser subjetiva e passa a ter uma base objetiva.

Isso não significa contratar por semelhança: times com diversidade de valores são mais resilientes e tomam melhores decisões em contextos complexos. Significa identificar onde há alinhamento em aspectos que serão inegociáveis no cotidiano e onde há diferenças que podem ser fonte de riqueza ou de atrito, a depender de como são gerenciadas desde o início.

No desenvolvimento e na retenção, o MVPI tem um papel ainda mais direto. Gestores que entendem o que motiva cada membro de sua equipe podem ajustar reconhecimento, delegação, estrutura de trabalho e tipo de desafio de forma personalizada, sem depender de tentativa e erro. Um profissional com valores altos de autonomia e estética não vai responder ao mesmo estímulo que um com valores altos de segurança e estrutura.

Tratar todos da mesma forma parece justo e frequentemente é desperdiçador. O mapeamento de motivações permite que o esforço de retenção seja investido exatamente onde vai fazer diferença, porque parte de uma compreensão real do que cada pessoa precisa encontrar no trabalho para querer continuar.

Transforme a visão que você tem sobre os seus talentos

Entre em contato com nossos especialistas para começar a utilizar os assessments Hogan na sua empresa

Fale Conosco

Endereço: Alameda Rio Negro, 911 sala 707 Barueri – SP – CEP: 06454-000
Telefone: (11) 3022-2583
Copyright Ateliê RH