O Narciso, maravilhosamente captado pelos pincéis do mestre Caravaggio, ilustrou uma ótima matéria de duas páginas no jornal O Estado de SP neste fim de semana (04/08/24) sobre “O que é e como reconhecer uma pessoa narcisista? Entenda o transtorno de personalidade.” O narcisismo pode ser um transtorno da pessoa mas muitas vezes é um transtorno para muitas pessoas que convivem com ela.
Este artigo informa que o TPN (Transtorno de Personalidade Narcisista) foi incluído em 1982 no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Além disso, informa que ele é relativamente raro — afeta cerca de 1% da população. No Brasil, seria algo em torno de 2,1 milhões de pessoas com TPN, com maior ocorrência entre homens e entre os jovens.
Mas afinal, porque tanta atenção nos dias de hoje a um tema apontado desde a mitologia grega? Teria relação com o fato de cada dia vêm mais à tona histórias de relações de trabalho e amorosas tóxicos? Será que em um mundo VUCA já não cabem tantas certezas absolutas como os narcisistas acreditam possuir?
Este tema se relaciona a um crescimento vertiginoso da importância da competência da humildade em oposição ao narcisismo. Imagine-se que uma boa parta daquelas 2,1 milhões de pessoas ocupam cargos de liderança – que estragos não fazem na saúde mental de pessoas e nas culturas organizacionais. Daí a importância de se entender e se identificar preventivamente o mal que o narcisismo desenfreado produz em todas esferas da interação humana.
De forma resumida, o TPN se refere a uma disfunção do mecanismo saudável de autoestima. Então, em seus melhores dias, as pessoas narcisistas são assertivas, seguras de si e conseguem engajar as pessoas pela confiança em si mesmas que passam aos demais.
Como diz o psiquiatra Eduardo Martinho Jr., coordenador do Ambulatório para o Desenvolvimento dos Relacionamentos e das Emoções do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da FMUSP, “o narcisismo nos ajuda a enfrentar desafios, confiar em nossas habilidades e buscar reconhecimento por nossas conquistas”. Porém, quando cruza a linha, a pessoa narcisista pode apresentar algumas tendências em histórias que todos nós já vimos, ouvimos ou sofremos.
Quem já não ouviu frases do tipo: “Você sabe com quem está falando?!” em que a pessoa se arroga a direitos especiais ou fantasia sobre suas habilidades e realizações, apenas pelo fato de ser quem pensa ser, são características do TPN.
Outros sintomas que indicam que você está se relacionando com uma pessoa narcisista são o exagero de suas realizações e a acusação de outros por seus fracassos e erros, se achar ou “se ter certeza” de que é superior em relação a qualquer interlocutor ou encampar realizações e créditos de outros para si e a arrogância com todos os tons que conhecemos.
Sem citar nacionalidades lembramos daquela piada: a melhor forma de ficar rico é comprar um narcisista pelo que ele é e vender pelo que ele pensa que é…
Então “confiar no próprio taco” é ser arrogante? Claro que não! Essa autoestima elevada é uma fortaleza quando utilizada com moderação. Especialmente em algumas áreas, como Vendas, em que a assertividade, autoconfiança e convicção são críticas para obtenção de resultados, esta arrogância comedida é fundamental. O bom vendedor passa tanta segurança em seu argumento de venda que nos contamina… e quando vemos, estamos no caixa pagando a conta do que pretendíamos comprar e mais alguns itens.
Não só para vender produtos ou serviços, mas também para influenciar outros a adotarem nosso plano, esta energia “arrogante” precisa estar presente. A humildade para aceitar erros é importante, não se discute, mas o sentimento de inferioridade crônico pode ser fatal para qualquer carreira. Não é fácil acreditar em quem não acredita em si mesmo.
O Inventário Hogan de Desafios (HDS) da Hogan Assessments nos permite avaliar as 11 tendências de comportamentos que temos sob pressão e estresse, resultando em disfunções com impacto em nossa reputação que se não corrigidos a tempo, descarrilam carreiras.
Dentre os 11 descarriladores, temos o autoconfiante que quando transbordante aparece como aquela pessoa arrogante que poucos aguentam por muito tempo. Ela ignora as opiniões dos outros e acha que apenas ela tem a resposta certa, correndo o risco de perder uma informação valiosa ou uma ideia brilhante daqueles que menospreza.
Provavelmente, o estilo de liderança do “comando e controle” que se acredita em extinção, ainda provocará muitos estragos pois o TPN ainda persiste em todos ambientes e a segurança demonstrada pelos/as narcisistas convence a alta gerência de que será um/a ótimo/a líder.
Agora quando o arrogante é seu chefe, a coisa se complica. Afinal ele tem um crachá diferente do seu, conferido pela alta gerência. Tem a autoridade para julgar, do alto do seu encosto de cabeça, o que é certo e errado para todos.
Sua agressividade (saudável) na busca de resultados é até motivo de admiração da cúpula. Porém, quando ela começa a ignorar os sinais de alerta e contribuições, com impactos nos negócios, então pode ser tarde demais. Mesmo aí, o arrogante convicto poderá afirmar que repetiria tudo novamente, pois ainda acharia que tinha razão, a despeito de todas as evidências e de estar na fila do seguro desemprego.
E como evitar esse acidente ferroviário ou descarrilamento da carreira?
Autoconhecimento Concentrado
Estudo já indicaram que a característica que diferencia os altos potenciais dos demais é a prioridade que dão ao autoconhecimento estratégico. Estes talentos são juízes mais críticos de suas habilidades ou mancadas, do que seus próprios juízes. Usam esse ingrediente para apoiar seus esforços de autodesenvolvimento contínuo. Desta forma, eles correm menos riscos de tropeçar na carreira por se acharem melhores do que são de fato. A fórmula a ser manipulada para prevenir os problemas de “arrogancite”, começa com duas orelhas bem abertas para receber feedback e orientações e engajar-se genuinamente nas soluções ou ao coaching, se tiver essa oportunidade de ouro.
A Unanimidade é Burra
Como já afirmava Stanislaw Ponte Preta, cronista dos anos 60, a unanimidade é burra, e igualmente estúpida, é a tentativa de se buscar a pasteurização da equipe. Para se sair bem nas Olimpíadas, os países levam seus corredores de 100 metros rasos e seus maratonistas, isto é, aqueles que chegam mais rápido em curtas distâncias e aqueles que chegam mais longe em distâncias como quarenta e dois quilômetros.
O arrogante se impacienta com as pessoas que não acompanham seu raciocínio rápido (e para ele infalível) e acaba perdendo o apoio dos talentos de profundidade e visão de sua equipe. Valorizar as individualidades para aumentar o poder do grupo é o esforço que o colega em foco deve transformar num hábito.
Há pessoas que se arrogam a direitos maiores do que as demais, seja por seu título, seu sobrenome, ou pela posição de sua caixinha no organograma. Isso até pode ser aceito pelas organizações, enquanto elas estão trazendo resultados, ao custo pessoal que seja. No entanto, cessando ou minguando a maré de sucesso, a impiedade pode ser proporcionalmente rápida em eliminar a arrogância, agora recriminada.
Afinal, assim como não há vidas menos significantes do que outras, também não existem trabalhos e colaboradores menos importantes do que outros.
